Meu mundo não era o mesmo

Assim como procedia todas as manhãs, fui acordado pelo meu despertador, daqueles antigos e bem chatos, que eu havia ganhado do meu avô. Tão logo meus sentidos eram aguçados para o dia, notei um som estranho que vinha de fora, como se máquinas passassem próximo a minha casa. Eu não estava acostumado com tanto barulho, ainda mais tão cedo, já que o lugar aqui sempre fora muito pacato. As árvores ao redor da casa, os pássaros cantando, as pessoas falando devagar... Um ritmo tipicamente interiorano.
Aquela manhã estava começando de um modo muito diferente. Levantei-me da cama e a primeira coisa a fazer era olhar na janela, o ponto de onde vinha tudo aquilo que me causava estranheza. Conforme puxava a trava, passei a sentir um calor incomum vindo do outro lado, como se estivesse prestes a entrar num forno. Eram apenas seis e meia da manhã e confesso que nem sei por onde começo descrevendo o que passaria a ser visto por meus olhos a partir daquele instante em diante.
O sol emitia uma luminosidade tão forte que nem nos dias mais fortes de qualquer outro verão eu havia presenciado. Só que isso foi só o começo da série de eventos que iriam seguir. Eu não vi mais o quintal verde da minha casa e nenhuma casa dos vizinhos por ali. Aquela área havia se tornado algo como uma rua, ou melhor, uma pista de pouso e decolagem. E do outro lado, um paredão branco. Não havia ninguém por ali. Somente veículos voadores!
Não podia ser. Eu fiquei completamente perdido, sem noção do que fazer ou imaginar. Fiquei atônito e corri para a porta de meu quarto, que estava trancada. Alguém havia me prendido ali enquanto eu dormia. Mas, espere aí: nenhuma pessoa, carros voadores, eu trancado sozinho... O mundo estava sendo invadido! Eram alienígenas tomando tudo! Por mais absurdo que seja para os céticos, foi a única coisa que a minha mente fértil conseguiu pensar. Só podia ser isso. Afinal, tudo estava perfeitamente normal na noite de ontem, 30 de dezembro de 2011. Nessa manhã, hoje, último dia do ano, algo chocante acontecia pra mudar tudo.
Assim que levantei nem tinha me dado conta, mas várias coisas de meu quarto não estavam mais ali. Minha televisão, pequena mas eficiente, meu aparelho celular e meu relógio de pulso foram os primeiros que notei a ausência. O calendário, que estava pendurado na parede, também fora retirado, exterminado, abduzido... sei lá o que acontecera de verdade. De qualquer forma, só estavam ali a minha cama, uma mesa vazia e meu guarda-roupa. Sim, o guarda-roupa. Ele era a última esperança de encontrar algo que pudesse me remeter ao mundo “real”, aquele ao qual eu pertencera até antes de fechar os olhos ontem. Aproximei minha mão da maçaneta dourada, já um tanto desgastada pelo tempo de uso, e girei lentamente, na expectativa de achar tudo como eu havia deixado.
Abri a porta. Tudo estava vazio. Não havia nada ali. Abri as gavetas em seguida, mas a mesma situação se repetiu. Fiz o mesmo nas demais portas e também não achei nem mesmo um pequeno pedaço de papel amassado que me desse alguma orientação. Aquele móvel parecia um móvel a ser transportado numa mudança de casa. Fiquei por um minuto parado ali no centro do quarto, rosto suando e os pés sobre o piso frio. Ao menos isso ainda continuava o mesmo, apesar de não contribuir em nada para elucidar aquele clima de mistério que se estabelecera inesperadamente numa manhã de sábado.
Já que eu estava naquela situação, repleto de dúvidas e carente de respostas, fui novamente para a janela. A mesma onde eu estava acostumado a ver os fenômenos típicos da natureza, como árvores mudando de estação, tempestades fortes e ventanias balançando tudo, a movimentação na vizinhança ou simplesmente o nada, naqueles dias de pensamentos distantes. No momento, o que eu podia ver não tinha comparação. Limitado pelas grades de ferro que estavam ali justamente para impedir a presença daqueles indesejados assaltantes, eu não podia sair do meu quarto. O mínimo e o gigantesco ao mesmo tempo, as noções de espaço ficaram confusas. O quarto ao qual eu estava preso era tudo que eu podia compreender como meu mundo, mas lá fora havia algo muito maior e de caráter desconhecido diante das transformações que teriam se sucedido durante a noite.
As pequenas naves passavam muito rápido e a todo tempo. Pareciam comportar o equivalente a uns três ou quatro homens, mas não era isso que eu achava que estivesse ali dentro. Olhando melhor para aquele paredão branco em frente, constatei um prédio gigantesco, sem janelas visíveis, e que parecia tocar nos limites do céu. Teria sido  a invasão das criaturas de outro planeta tão rápida e elas eram assim tão velozes para construírem tudo aquilo durante algumas horas? Fiquei tentando pensar.
Continuava a não ver nenhum ser humano por perto e só pude imaginar que tivessem todos sido exterminados ou levados pra algum ponto distante no universo. Será que só sobrara eu? Eles tiraram quase tudo do meu quarto e me trancaram ali. Provavelmente queriam fazer alguma experiência comigo!
Um alarme soou, um som estridente, como se viesse do alto da torre e ecoasse por todo o planeta. O som parecia invadir meu cérebro e não queria sair. Finalmente:
_ Bom dia! – meu Deus! Era uma voz humana! Enfim, algo que eu podia reconhecer. – São sete horas da manhã. – era uma voz muito grave. Um tom autoritário e impassível. Se aquela era a voz de um E.T., havia aprendido com eficiência nossa língua e enganava muito bem.
Prosseguiu:
_ Todos já para seus postos de trabalho!  O planeta não pode parar. – parecia uma mensagem para os funcionários de uma fábrica, mas eu nunca tinha ouvido nada assim na rua.
A voz, fosse lá de quem, deu uma pausa, mas voltou com tudo.
_ Vamos aos nossos recados do dia. Estamos encerrando mais um ano hoje e tenho o prazer de lhes informar que ontem foi impedido de nascer o bebê de número 50.000.000.000 no planeta. – meu corpo ficou gelado dos pés à cabeça.
O que era aquilo? Até ontem a população mundial era de sete bilhões. Quantas criaturas vieram para cá essa noite? Mas não tive tempo de ficar pensando em números, ele continuou.
_ Como sabem, a população da Terra precisa manter esse limite. Nós temos tomado  todas as medidas pra isso. – tive uma certa tontura e perturbação. Senti-me num pesadelo.
A voz pareceu mais contente em continuar seu discurso matinal:
_ Vamos aos destaques que anunciamos todos os dias. Garanto que todos andam cumprindo, mas precisamos ressaltar. – fiquei imaginando a boca de um torturador, salivando diante de sua vítima. – Todos aqueles que completam 65 anos de idade na data de hoje, tenham a honra de se dirigir à Câmara Mundial de Gás, no Centro da cidade, para que possam morrer com dignidade e contribuam para que os mais novos vivam num mundo melhor. – matando velhinhos?! Não! – Só lembrando também mais uma vez que cada casal neste planeta só pode ter no máximo um filho, e mesmo assim é necessário comprovar autossuficiência financeira para arcar com todas as despesas dele. O governo não pode se preocupar com nenhum cidadão individual. Aqueles que desrespeitarem serão presos e esterilizados, e seus filhos serão utilizados em experiências científicas ou enviados para as bases de adoção na lua. – Haviam se infiltrado mesmo no planeta e já estavam fazendo controles de natalidade e mortalidade.
_ Um dia bom e rentável, planeta! Fico por aqui com mais um informativo do Governo Central Mundial. – encerrou com uma sutileza irônica.
Assim que a voz terminou seus dizeres e eu tentava voltar a respirar com mais calma, veio outra voz, dessa vez feminina, parecida com aquelas que a gente ouve no aeroporto.
_ Bom dia, moradores do planeta! Tenho algo fantástico e inacreditável para lhes oferecer hoje.  Algo que não via há mais de 30 anos e só ouvia em histórias dos mais velhos. – ela me deixou curiosíssimo, por mais que eu não fizesse ideia de onde havia ido parar.
Aquilo tinha um tom de canal de vendas na televisão.
_ Queridos e queridas, ontem um senhor nos procurou para mostrar a coisa mais valiosa que se tem notícia hoje na Terra. Como hoje ele faz aniversário, acabou nos procurando para deixar uma maravilha que ninguém mais tem. – fiquei imaginando que fosse a pedra preciosa mais rara de todas. – Fico trêmula só de anunciar, terráqueos. Mas preparem-se...
Os segundos pareciam uma eternidade pra mim.
_ É com a maior honra de toda a minha vida que eu anuncio, homens e mulheres deste planeta: são 5 ml de água doce natural. Sim, senhoras e senhores. É algo que só nós temos. Um anúncio inédito. – fiquei literalmente de queixo caído. – Os dez primeiros que ligarem para a Central Mundial de Leilões poderão ser sorteados para o leilão e um terá o prazer de arrematar uma porção de água doce e natural. Não é a água artificial que vocês compram. É a única que nenhum outro terráqueo terá o privilégio de beber. – Estavam tomando o mundo, exterminando humanos e agora leiloando água! Eu havia acordado em outro planeta. Era isso.
Tão logo a voz anunciou a “grande raridade”, tudo parou. Imagino que todos devem ter começado a ligar para conseguir a vaga no leilão. Até ontem sempre tinha água aqui em casa, apesar de faltar de vez em quando. Mas pelo tom da propaganda tudo havia secado da noite para o dia  e as criaturas pareciam não estar acostumadas com esse líquido.
E eu continuava preso ali. Confesso que fiquei esperando para que alguém aparecesse logo, fosse lá uma criaturinha verde ou um alien horripilante. Mas eu só  queria que me explicassem de uma vez o que acontecera.
Estava muito ansioso para ver um rosto. Finalmente pude ver duas criaturas que desceram de um veículo no chão e passaram pra outro. Mas não podia ver seus rostos, sequer suas mãos. Estavam cobertas da mesma forma que um astronauta no espaço. Observando o máximo que pude, percebi  que eram como humanos andando muito depressa. As formas denotavam isso também. Seriam os E.T.s muito parecidos conosco?
Queria que meus pais e meu cachorro aparecessem ali, mas também não havia sinal nenhum deles. Só um mundo estranho lá fora. De ontem só sobraram eu e meu quarto. Apalpei-me bem pra ver se realmente meu corpo continuava o mesmo. Não tinha nenhum espelho por ali, mas pelos traços meu rosto também não havia mudado.
Começou um novo som, era como uma musiquinha infantil, dessas de propaganda de brinquedos.
_ Olá crianças terráqueas! – novamente eu não via de quem era a voz, mas imaginei imediatamente alguém vestido de palhaço.
_ Estamos encerrando mais um ano. Esse que acaba não foi tão divertido, mas vamos fazer que o próximo seja. Para isso, precisamos que todos trabalhem direitinho e produzam bastante. E vamos cumprir mais uma vez a meta: diminuir a população do planeta. Lembrem o papai e a mamãe: nada de ter outra criança. Está combinado, crianças? Eu volto a qualquer momento com mais novidades pra vocês! – sua voz tinha um quê de sinistro. Definitivamente não era alguém com quem eu gostaria de deixar uma criança.
Ele ainda não tinha acabado.
_ Um divertido 2070 para todos!
Não era invasão nenhuma! Muito menos uma guerra dos mundos! Eu havia acordado em 2070, no futuro. Tudo passou a fazer sentido: a população mundial, os carros voadores, o calor intenso, a raridade da água doce, o governo único...
Um outro alarme tocou.
Meu despertador novamente. Acordei na minha cama, com os olhos arregalados, como não poderia deixar de ser. Mas dessa vez tudo aparecia no seu devido lugar. Corri para a janela. Todas as árvores e casas da vizinhança voltaram a onde ficavam. O calendário marcava o dia certo: 31 de dezembro de 2011.
Ufa! Foi só um pesadelo. Pelo menos assim o foi pra mim, em 2011.
Já em 2070 eu não sei.

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