Pequenas tentativas de poemas





    Dos gêneros que estou habituado a ler e procuro escrever com certa frequência, os poemas foram e continuam sendo um grande mistério pra mim. O que faz dos versos algo realmente marcante e que continuam a fascinar muitos anos após a morte de seu autor? Que Drummond, Emily Dickinson ou Maiakovski são grandes nome do gênero é fácil dizer. Temática, revelação da alma e sentimentos comuns a nós humanos, métrica, sutileza... Inúmeros são os recursos utilizados e os critérios de avaliação de estudiosos da literatura. 
   De qualquer forma, humildemente, deixo alguns "pedaços" (oito propriamente) que escrevi ao longo dos últimos cinco anos na tentativa de extravasar sentimentos ou simplesmente ver se resultavam em algo. Aí vão...


O DIA E O DESEJO
Um dia acordado
energia boa me toma.
Aquele ombro quente
está ali junto ao teu.
Você quer sentir:
conforto, prazer, ilusão.
Não passa de imaginação.
Nada disso é verdade!
Mais que preciso de sonhos.
Só sonho porque vivo
e vivo porque durmo.


EU VIVO AQUI
Eu chorava enquanto todos riam
Eu era tímido onde todos falavam
Eu não dirigia em meio às máquinas
Eu não me expunha e eles se mostravam
Eu apreciava o simples mas todos só compravam
Eu tentei a vida, percebi que acabou quando a morte chegou.


O CORAÇÃO TEIMA EM BATER
Estando à procura de olhares
Daqueles que não fujam dos meus
Os corpos que ali perto estão
Mas de uma forma longe parecem
Ansiando por aquela visão que atrai
Já tentei ignorar esse meu hábito
Mas como é que vou fugir de mim?

Pensei que aqui não poderia mais ficar
Já foram vezes demais o coração doendo
E eu já tolamente pedi pra ele parar
Que não me cause mais a tal dor não
No repouso de uma noite quero estar
Querendo ainda aquilo pra não desistir
Somente um pro sentimento, não fuja.


JOHN LENNON AOS 40
Meu ídolo está morto
O poeta sonhador
Ali moro o escritor
E de dor acho vivo
Mas o amor amo mesmo
Não resisto em te olhar
Meu ídolo está morto
Nem 30 eu tenho
Não sei quanto tempo
Por aqui que terei
E ele era o sonhador
E na dor foi, quarenta.


O TÃO BEIJO
Aquilo suave que nos envolve
umedece-nos a alma
a saliva se aprofunda
juntos estamos para o eterno
não sabemos o quanto
de que importa o amanhã
se agora nos tocamos
como dói de tão prazeroso
Aquele beijo que nós demos
Os seus lábios nunca mais
Mas para sempre o sabor
do nosso momento juntos
Bom de ti desfrutar o torpor.


NÃO!
Nunca lhe mostraram daquela lição?
Daquelas como se ensina as coisas da vida.
Você acorda constantemente com a ilusão,
tocado por  aquele momento de despedida
e cansado é da repetição dos ponteiros.
Só te falo que não se faz com ninguém não.

Você arrebenta a corda e cai numa descida,
Sempre alguém te lembra que há regras pra viver,
que tem a vida os seus momentos de ritual.
Porém o que os outros fazem é só entreter.
Transformam sua essência na vitrine do moral
e passam dias e noites sem sequer compreender
que aquilo mal passa de um obedecer do ser.

Aí vem a coisa que denominamos Amor.
Te tocando pela primeira vez na idade inocente.
Mas da raiz se apoderando, mostra o seu rancor.
Cospe nas entranhas te ensinando o que é ser gente.
É pra te mostrar o quão vivo teu eu sofredor
e é pra ainda lhe acusar: Seu inconsequente!

Pesque as palavras que quiser no rio dos solitários,
mas só não tente o desprezo por aquela ter,
pois mesmo pela saída no monte dos calvários,
o sentimento teimoso não hesita em aparecer.
Quando finalmente lhe tecerem a rede da razão,
aquilo que não passava de um falso você
vai se tornar de vez a vil negação.

Estamos crianças demais pra na morte pensar
e anciões não pretendemos ao conhecer o mar.
Mas quando tivermos nossa chance,
vamos é nos dar as boas vindas.
Quebrar relógios e ignorar gente sem nexo.
vamos acreditar sem se importar.
Que o que vale independe de um reflexo.

Acordar-te-ão com a luz negra, 
vindo esta sobre uma branca escuridão,
mostrando de uma vez só que não há regra,
que os corpos diferentes são, 
porém as almas é que não.


QUANDO SE ENCONTRAM CAMINHOS
Não aguento mais essa espera
De ficar só olhando.
Até ter olhares retribuídos,
Só que não ter nada rolando.
Olhar os outros felizes,
Mas comigo só as coisas passando.

Não ter aonde ir,
Perder-se no escuro,
Só querendo partir.
Esquecer tudo por horas,
Ficar na esperança de ter sonhos
E não mais enfrentar essas demoras.

Me arrumar pra ficar bem,
Mas sentir que não estou pra ninguém,
Sem prazo pra isso terminar,
Ilusões para um futuro imaginar.
Com tudo só na imaginação,
A realidade é sempre a mesma continuação.

Vou e volto dos mesmos locais.
Me sinto cansado do tédio,
Quero coisas mais reais.
Chega de perder a oportunidade.
Queria só uma chance,
Pra viver na realidade.


ACHO QUE ACABOU
Afago meu cachorro.
Caminho, engravatados medíocres.
presos por elas, correntes de obrigações.
Me vejo sem futuro,
mas olho para o passado
Disseram pra eu ter um futuro.

Afago meu cachorro.
Sorrio para as lembranças,
caio pelas misérias.
Olho para o tempo.
O vento me faz correr.
A chuva limpa.
O sol me amolece.

Afago meu cachorro.
Espero um olhar.
Anseio pela resposta.
Vivo na espera.
O dia acaba.
Noite nada me promete.
Só me põe a dormir na cama,
confortável, lençol frio.

Afago meu cachorro.
Não dirijo a palavra.
Ela sai trêmula,
como se sem força, tímida,
o primeiro beijo de inexperientes namorados.
Beijo suave, interminável,
tal como o sereno da madrugada.

Afago meu cachorro.
A música toca
e os sonhos me tocam a alma de supetão.
A mensagem chega pelo celular.
Lá fora andam meninas sem futuro
prontas para o que preparadas não estão.
Meninos menos ainda.
Só exibem seus corpos para o toque.
Não chegou nada pra mim hoje.

Afago meu cachorro. Ele dormiu.

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