domingo, 10 de julho de 2016

Pensar antes de falar faz bem



As mídias sociais deram o direito à fala a legiões de imbecis que, anteriormente, falavam só no bar, depois de uma taça de vinho, sem causar dano à coletividade. Diziam imediatamente a eles para calar a boca, enquanto agora eles têm o mesmo direito à fala que um ganhador do Prêmio Nobel. O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade.



A frase foi proferida pelo professor e escritor Umberto Eco (1923-2016), falecido recentemente e autor de vários livros notáveis publicados por aqui, como "O Nome da Rosa", "O Cemitério de Praga" e "Número Zero". Este último, seu canto do cisne, tive o prazer de adquirir recentemente. E aproveito para deixar minhas impressões sobre um assunto, que, volta e meia, chego a comentar por aqui.
Pra começar mais uma breve reflexão, preciso dizer que concordo com o pensamento de que é melhor ter excesso de informações do que falta. Como curioso que sempre fui e buscando conteúdos em revistas, livros e na internet (memória de almanaque é uma loucura...), acabo esbarrando em todo tipo de ponto de vista, sejam blogs pessoais como este meu ou simples comentários em vídeos do YouTube e posts do Facebook. E foi justamente dessas observações somadas a coisas que vejo aqui e ali na boca das pessoas ou repercutindo na mídia que tive o interesse e a necessidade de me expressar sobre esse ódio e ignorância que hoje parecem muito mais evidentes do que antes.
Dia desses, por exemplo, vi vídeos de uma jovem (felizmente não me recordo o nome) que falava com o maior orgulho sobre tipos de pessoas e fatos que ela tratava com o maior sarcasmo sem qualquer preocupação com a veracidade e o julgamento correto. E embaixo vinha a horda de seguidores e apoiadores a comentarem, como discípulos a escolher seu líder, o farol duvidoso de um novo tempo. Um tempo que, para certas pessoas (com problema de autoconfiança, imagino), representa a degradação total dos valores morais, da família, das instituições... Mas bem sabemos que preconceituosos e oportunistas sempre existiram, como bem ressaltou Umberto Ecco na frase que abriu este texto, só estão mais óbvios agora em seus perfis virtuais (verdadeiros ou não).
Se uma mulher aparece na mídia porque foi espancada pelo namorado vão dizer que ela gostava de apanhar, se um gay diz que sofreu preconceito vão falar que é "mimimi", se um negro é confundido com assaltante vão falar que ele devia usar roupas que fizessem com que ele parecesse mais sério (!)... São só exemplos de situações que reforçam comportamentos que, por épocas, foram considerados rotineiros, fosse a misoginia, o racismo, a homofobia, a xenofobia, as intolerâncias culturais e religiosas, o desrespeito à natureza. É tanta questão pendente que precisa ser bem resolvida no século 21 que chega a parecer que o mundo é caótico ao extremo e não há qualquer solução, como se precisássemos começar do zero em outro lugar.
Mas sou relativamente otimista porque hoje a consciência de responsabilidade e respeito afloram cada vez mais cedo. Faça o que quiser da sua vida, mas só não faça mal aos outros. Uma frase simples que é basicamente minha forma de "classificar" as pessoas. Não há ninguém absolutamente bom ou absolutamente ruim, mas é muito melhor estar do lado daqueles que pendem para o positivo. O mundo não gira ao redor de mim ou de você ou daquele desconhecido lá. Uma boa dose de sensatez faz bem antes de realizarmos ações que afetem a vida de outras pessoas.
Abaixo indico mais um vídeo do canal Poligonautas, que é excelente e um dos poucos que sigo atualmente. Sempre com vídeos inteligentes sobre temas variados.



quinta-feira, 9 de junho de 2016

Mulheres como inspiração (e cenas de uma nova história)





Sempre que paro para pensar em grandes filmes e peças de teatro que têm me fascinado, percebo que a maioria dela gira em torno de personagens femininas marcantes. Podem ser lindas, pavorosas, sedutoras, trágicas, doces, loucas, frágeis, duronas... Não importa. O que chama a atenção mesmo é o potencial dessas personagens e das atrizes que as interpretam e como revelam o que há de mais fascinante e sombrio nas demais mulheres e também em nós homens, que somos gerados no ventre desse que é o mais complexo dos sexos.
O que seria da dramaturgia sem a Medeia de Eurípedes, Julieta e  Lady MacBeth de Shakespeare e a Miss Julie de Strindberg? Sem citar as mulheres criadas pelo russo Tcheckov... No campo do cinema não dá pra esquecer tantas que nos fascinaram pela forma incrível como foram escritas e encarnadas, passando pela impaciente Norma Desmond de Gloria Swanson em "Crepúsculo dos Deuses" (1950), a frígida Marquesa Isabelle de Merteuil feita por Glenn Close em "Ligações Perigosas" (1988) e, mais recentemente, a Imperatriz Furiosa que Charlize Theron nos brindou em "Mad Max: Estrada da Fúria" (2015).
Introdução e pequena homenagem feita a algumas dessas mulheres que me inspiram a escrever, deixo o trecho de uma peça que comecei no ano passado e não vejo a hora de concluir e poder assistir encenada pelas mulheres que lhe dão título.
Na cena a seguir, que acontece nos primeiros minutos, vemos o diálogo de duas mulheres que acordaram numa praça pela manhã. Uma já senhora e outra mais jovem. O resto é mistério até o texto integral ficar pronto.



CENA


REGINA
Bernadete, traga o meu café logo. Já devia estar aqui.

Maria José observa, de longe, sem entender qualquer coisa.

REGINA
Meu café, Bernadete! Perdeu a hora hoje? (ela olha para Madalena, ao seu lado) O que é isso aqui ao meu lado? É algum baile de carnaval? Que fantasia horrenda, meu Deus.

MARIA JOSÉ
Eu conheço a senhora? Alguém poderia me explicar como eu vim parar...

REGINA
Pare de brincadeiras, Bernadete. Eu sei que você deve ser a substituta da outra atriz, mas precisa saber suas falas de cor, Bernadete.

MARIA JOSÉ
Meu nome é Maria José...

REGINA
Mas isso não me importa. Se é Maria Cristina, Maria Rita, Maria Maria. O importante é que você está interpretando Bernadete. Ou foi mandada por acaso pra esse teatro?

MARIA JOSÉ
Isso aqui não me parece um teatro. É uma praça qualquer. Eu acordei aqui e a senhora também.

REGINA
E que fantasia é esta? Uma mulher fardada. Isso não existia naquela época. Bernadete era uma governanta. Não isso aí... Tem uma espingarda também?

MARIA JOSÉ
Sim... Essa fantasia aqui é a minha de policial também. É isso o que eu faço. Aponto arma e prendo pessoas. A senhora gostaria de ir também?

REGINA
Regina Cordeiro Magalhães. (colocando os óculos de grau) Realmente você não serve pra interpretar a Bernadete. Ela é muito mais velha que você. Você não deve ter mais do que 35. Eu nem falo porque tenho mais que o dobro. Onde está a outra atriz? (levantando-se) Eu consegui decorar todas as minhas falas. Os ensaios já acabaram? Como é que eu vim parar aqui?

MARIA JOSÉ: É o que eu tenho tentado descobrir durante os últimos minutos, senhora. Eu não me lembro de ter vindo aqui antes. 

REGINA
Será que fomos vítimas daquele golpe? Como se chama aquilo com nome de conto de fadas?

MARIA JOSÉ
É o “boa noite Cinderela”.

REGINA
Mas não é a Bela Adormecida que dorme profundamente? Meu Deus, será que fomos abusadas? Imagine um homem estranho tocando em mim a essa altura da vida... Faz tanto tempo que eu não sinto aquilo. E o pior é que eu não vi nada. Uma dama, num banco de praça, à essa altura da vida... Eu sempre soube que os herdeiros de meu finado marido fariam qualquer coisa pra ficar com os meus bens, mas isso? É um pesadelo? Preciso acordar. Dá uma sacudida em mim.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

A ficção (e por que não vivo sem ela)




Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E, no entanto, cada vez que vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever. 
(Clarice Lispector)


De vez em quando fico pensando sobre o porquê de eu ser tão apaixonado por narrativas. Pode ser um conto, um romance, um filme, uma peça teatral e até um pequeno desenho a lápis. Desde muito cedo tive a tendência a imaginar cenas e fantasiar sobre uma variedade de coisas que apareciam no meu caminho. 
Como seria viver naquele lugar que só vi numa foto? Como era a vida naquele casarão antes dele ter ficado vazio? Como era a relação daquelas pessoas quando conviviam? Perguntas que vão e vem e me dão combustível para escrever diferentes histórias, muitas vezes um tanto distantes da minha própria realidade. Se é só inspiração ou se há algo de espiritual nisso eu não sei. Mas só sei que sem histórias não vivo.
Lembro-me muito bem dos meus primeiros projetos de ficção na pré-adolescência (e que sei lá por que não vingaram...). Tinha peça de teatro na escola no estilo "Escolinha do Professor Raimundo" (fazíamos vários ensaios aqui em casa) e até a tentativa de escrever uma novela (!) na época em que eu era viciado em ver folhetins e não perdia um capítulo (de reprises a novelas mexicanas). Enfim, isso é passado, mas não posso negar a importância que aquela fase de telespectador aos 10, 12 anos de idade teve no meu processo de formação como "contador" de histórias.
Aos 14, 15 anos fiquei fissurado em filmes e passei a pesquisar e ler sobre muitos filmes que ainda nem havia tido a chance de ver e, de lá pra cá, comecei a alugar e comprar o máximo que pude. Dez anos depois ainda faço lista de clássicos que quero ver, coisa que a internet me ajuda (e muito) hoje em dia, já que muitas das películas podem ser vistas gratuitamente no YouTube e outros sites por aí.
Aqui no blog e sua página do Facebook (curta aqui se ainda não o fez) e meu Instagram (siga aí) sempre estou postando fotos, trechos e cenas de muitos desses livros e filmes que tenho lido/visto ou que estão na minha lista. A curiosidade e o fascínio pela fantasia me levaram aos desenhos e filmes. E destes fui sendo seduzido cada vez mais para o mundo das palavras, como leitor e aspirante a escritor de algumas coisas, como tento me definir para não me sentir muito distante do mundo "real" em que vivo. Se tenho talento e algum futuro só outros podem me dizer, mas certamente já tive e continuo tendo muito prazer com a escrita. E sigo tentando e sonhando e lendo e vendo filmes, afinal, sem ficção parte da minha vida não tem sentido. Para fechar de forma apropriada, abaixo o trailer de um filme, por sua vez baseado em um livro, que fala sobre um escritor. Por hoje é só.




terça-feira, 19 de abril de 2016

Prefiro sempre a Democracia!



Todos falam o que pensam a qualquer momento... Uma faca de dois gumes. Diante de tudo que temos vivido e para os que desconhecem a História do Brasil e saem por aí compartilhando informações equivocadas, é sempre bom pesquisar e ter certeza de que já tivemos um regime ditatorial. Sim! E este fez muitas vítimas, direita e indiretamente. 
Se você escreve a todo momento o que pensa aqui na Internet, saiba (se ainda não sabia) que naquela época era muito diferente. 21 anos sem poder votar para presidente, censura à imprensa e aos artistas e nenhum direito de protestar já são bons argumentos para os leigos no assunto começarem a se aprofundar no assunto antes de serem convencidos por reacionários radicais.
Os dois vídeos abaixo são retratos para nos mostrar aquela triste realidade, cada um abordando pontos de vistas diferentes, mas que se complementam. Sem mais delongas. É a nossa verdade, por mais duro que seja de acreditar nisso hoje.



"O Dia Que Durou 21 Anos" (direção: Camilo Tavares)







"Os Militares da Democracia: os militares que disseram Não" (dir.: Silvio Tendler)


terça-feira, 1 de março de 2016

O que fazer com tanta informação?


     As fontes de informação nos dias atuais multiplicam-se em uma velocidade intensa, conforme aparelhos com acesso à internet são cada dia mais acessíveis. Lemos, escrevemos, compramos, assistimos, conhecemos pessoas, pedimos a pizza e o táxi... Do bate-papo descompromissado com o amigo à criação de canais de vídeos que podem se tornar uma lucrativa fonte de renda para seus idealizadores. Inúmeras são as possibilidades desses recursos indispensáveis na vida que fica mais corrida, tanto para uma criança atarefada precocemente até a pessoa idosa que não perde tempo em aprender o que puder.
     Depois de tantos benefícios apresentados, podemos, então, entrar em um dilema do século 21: tanto conhecimento pode nos tornar indivíduos melhores e mais conscientes de seu planeta ou estaríamos mais para criaturas a caminho de ficar saturadas de tanta coisa? Corremos o risco de perder a concentração  e não deixarmos mais nosso cérebro em estado de relaxamento?



Para discutir o assunto, pude conversar e contar com a colaboração do filósofo, psicanalista e professor universitário Luiz Fernando Fontes-Teixeira (foto). Acompanhe a seguir.


L&I - Durante muitos momentos da História, o acesso a conhecimentos importantes era privilégio de grupos, como religiosos, filósofos e membros da elite, o que vem mudando consideravelmente desde o século 20. O acesso cada vez maior a informações sobre fatos em qualquer parte do globo em tempo real é um avanço significativo nesse sentido. Como você avalia isso do ponto de vista filosófico? Quais os impactos em nossa sociedade?
LFFT - Sua pergunta levanta dois tópicos muito importantes. O primeiro diz respeito ao direito de acesso à informação, à comunicação e ao conhecimento.
A democratização dos meios, com a popularização da internet e o advento das novas mídias, representa um avanço inestimável. Tanto aqueles que antes não possuíam acesso às fontes, quanto aqueles que as possuíam, mas tinham dificuldades de divulgar o conteúdo, podem agora desfrutar de uma ampla rede de compartilhamento, diálogo e mútua colaboração.
Entretanto, não basta apenas disponibilizar o acesso. É também necessário ensinar a ler as mais diversas mídias e absorver os múltiplos conteúdos. Informação não é conhecimento, assim como pouca distância não é proximidade. É imprescindível promover a passagem da recepção da informação para a construção do conhecimento. Esse é o motivo pelo qual observamos hoje a emergência de novas áreas do saber, como a Literacia Midiática, a Educação Midiática ou a Educomunicação, que apresentam propostas de interatividade, leitura crítica das mídias e produção colaborativa de conhecimento reflexivo.
Por esse motivo, somente após uma profunda reflexão a respeito da comunicação e seus meios que poderemos começar a mensurar os limites e alcances desta nova Era. Pessoalmente, acredito que estamos trilhando somente os primeiros passos para compreendermos os novos fenômenos do mundo digital.
Já o segundo tópico é um pouco mais complicado. Refere-se ao poder conferido aos que detêm maior conhecimento. Indo direto ao assunto: o que me parece estar em jogo aqui é a Ética enquanto postura fundamental. E por Ética não me refiro a um conjunto de normas ou preceitos morais de “certo” e “errado”, mas à capacidade de assumir a responsabilidade como um princípio superior.
Quem assume a posição de detentor de um determinado saber, precisa também assumir a responsabilidade por esse saber e por aqueles que não o possuem. Caso contrário, o resultado é inevitavelmente o monopólio do conhecimento, geralmente seguido de ocultação e manipulação de informações, bem como manipulação do próprio povo.


L&I - E no campo da psicologia, como tanta informação ao mesmo tempo num site de notícia, por exemplo, é processado pelo cérebro do indivíduo?
LFFT - O pouco que acompanho dos mais recentes estudos no campo da psicologia parece indicar que, de fato, o acúmulo excessivo de informações tende a transtornar o indivíduo. Psicólogos e neurocientistas gostam de nomear esse fenômeno como “sobrecarga de informação” ou “infotoxicação”. As implicações parecem ser as mais variadas.
Todavia, não podemos esquecer que a veiculação de tais informações está apenas disponível, isto é, à mão. Nós é que nos colocamos à disposição desse excesso e somente nós mesmos podemos interromper o fluxo. Cabe ao sujeito selecionar aquilo que lhe interessa, tomar a decisão e assumir a responsabilidade pelo conteúdo que consome.
A partir do ponto de vista da minha área de atuação, a psicanálise, posso me atrever a argumentar que se colocar à disposição de tantas informações expressa uma posição subjetiva. O desejo é sempre o desejo do outro. Quando se alcança algo desejado, sintomaticamente se passa a desejar outra coisa. O excesso de informação apenas responde à demanda e fomenta essa relação ambígua com o desejo.


L&I - Por conta disso, a ansiedade, como transtorno psíquico, é efetivamente um problema de saúde pública hoje ou se tem tornado alvo fácil da indústria farmacêutica? Estamos realmente nos tornando mais impacientes e preocupados demais em sermos bem vistos socialmente?
LFFT - A ansiedade é um sintoma que revela a dificuldade de lidar com as incertezas, com o inesperado, com aquilo que não podemos nem controlar, nem nomear. Trata-se de um dispositivo de defesa perante o desconhecido, o imprevisível. A ansiedade sempre se manifestou, com ou sem tecnologia. É um velho sintoma presente em uma nova realidade, onde as coisas estão apenas dispostas de maneira distinta. Ainda estamos aprendendo a lidar com essa nova disposição.
A indústria farmacêutica é outro problema. Ela avança com ferocidade, dia após dia, ano após ano. Não podemos, contudo, negar que devemos muito aos esforços empreendidos por essa indústria. Entretanto, assim como a questão da informação excessiva, os fármacos estão apenas disponíveis. Cabe ao sujeito optar pelo seu consumo ou não. Nesse ponto, retomamos também a primeira pergunta, aquela que relaciona o poder com o conhecimento. Os médicos devem ser responsáveis o suficiente pelo saber que possuem e administrarem os remédios certos, na medida certa – não permitindo que o lobby de grandes empresas direcione o tratamento de seus pacientes.
Agora, quanto à impaciência e à preocupação em sermos bem vistos socialmente, acredito que isso sempre ocorreu, assim como a ansiedade. O que muda é que tais fenômenos estão mais visíveis – o que pode ser bom, por um lado, e ruim, pelo outro. É uma questão de meio, não de fim.


L&I - As novas gerações que estão crescendo com as tecnologias sofrem ou sofrerão prejuízos que as anteriores não tiveram por conta do acesso ilimitado a fontes de conhecimento?
LFFT - Não é possível afirmar acuradamente se as novas gerações serão vítimas de prejuízos decorrentes do acesso “ilimitado” ao conhecimento. Qualquer um que afirme isso categoricamente cairá no engodo de uma predição vazia e sem fundamentos.
O que talvez seja possível supor é que a nova geração possui modos de fazer laço social ligeiramente distintos daqueles que outrora conhecíamos, o que exige uma nova perspectiva a respeito do sujeito. Ainda estamos construindo as bases para pensar essa nova perspectiva e talvez permaneçamos “em construção” por ainda muito tempo.
Seja como for, acredito que muito pouco das nossas expectativas em relação às novas gerações serão atendidas. Usamos uma lógica velha para compreender o novo. Uma guinada em nosso olhar se faz urgente se quisermos ensaiar uma resposta digna para essa pergunta.


L&I - Como você enxerga a situação de um indivíduo que descobre e vasculha perfis de tantas pessoas diferentes com o clique de um mouse ou toques de dedos ao celular? Problemas como autoestima baixa e sensação de solidão tendem a se agravar?
LFFT - Esse é outro ponto incalculável. Não podemos prever quais tipos de problemas advém da prática de vasculhar perfis de outras pessoas na internet. Cada caso é um caso. As redes sociais são apenas um novo e mais hábil veículo para um sintoma já muito antigo. Aquilo que agrava a sensação de solidão ou interfere na imagem de si mesmo possui origens que só o próprio sujeito pode investigar e analisar – geralmente, remontam a questões inconscientes anteriores ao uso da internet. As mídias sociais podem apenas deixar esses problemas mais visíveis.


L&I - Para o sociólogo polonês Zygmunt Bauman (autor de uma série de livros publicados no Brasil como Tempos Líquidos e Vida para Consumo), vivemos uma espécie de período de ilusões. O virtual pode se sobrepor ao real, fazendo com que, por exemplo, ter uma grande quantidade de amigos numa rede social seja sinal de pertencimento a um grupo, podendo-se acrescentar ou retirar membros a qualquer momento. Que riscos você vê nisso?
LFFT - Bauman é uma das mentes mais afiadas, provocativas e ilustres da sociologia contemporânea. Suas teses dialogam com diversas áreas do conhecimento e suas pesquisas sempre analisam problemas pertinentes aos desdobramentos mais urgentes de nosso tempo. Todavia, acredito que ainda estamos muito longe de pensar com suficiente radicalidade o sentido de termos como “real” e “virtual”. Supor uma cisão entre ambos me parece ingênuo.
Talvez faça sentido para a minha geração e para as gerações anteriores pensar assim. Entretanto, os chamados “nativos digitais” não compreendem o “real” e o “virtual” como estruturas separadas. Ambos fazem parte de uma mesma realidade entrelaçada, que se implica mutuamente. Novamente, insisto, não podemos olhar para os novos fenômenos de hoje através das velhas lentes com as quais enxergávamos o mundo de ontem. Bauman abriu muitos caminhos. Chegou a hora de refletir seriamente sobre suas sugestões e apresentar algo novo, para além dos conceitos e paradigmas com os quais estávamos acostumados.

L&I - Aproveitando sua experiência como pesquisador e professor universitário, de que forma você procura equilibrar a necessidade com a oferta de conhecimento? Que critérios procura utilizar?
LFFT - Uma das tarefas mais importantes de um professor ou de um pesquisador é a de abrir caminhos para os estudantes. Os caminhos devem possibilitar ao estudante o encontro com o inusitado, com aquilo que viabiliza a expressão de sua singularidade. Ademais, devem ainda despertar o seu desejo, permitir que ele seja nomeado e indicar as ferramentas necessárias para que ele o sustente.
A destreza do professor, ou pesquisador, ou ambos, reside na capacidade de inquietar e deslocar os saberes consolidados. Responder às demandas de estudantes apenas faz com que eles se mantenham estáticos, no lugar onde antes já se encontravam. O professor é sempre aquele que incomoda – um sujeito pelo qual nutrimos uma ambígua relação de admiração e repulsa, amor e ódio, crítica e respeito.
É na tensão da articulação entre saberes universais e posições particulares que se concentra a prática docente ou de pesquisa. Nesse sentido, não existe critério melhor na posição de um professor do que a ambivalência dos sentimentos contraditórios.



Luiz Fernando Fontes-Teixeira é Doutor, Mestre e Licenciado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e integrante do corpo de formação do Instituto da Psicanálise Lacaniana. Atualmente, cursa a Licenciatura em Educomunicação e participa do Programa de Estímulo ao Ensino de Graduação na Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. O site para contato e mais informações sobre seu trabalho: www.luizfernandofontesteixeira.com.br.

E quem quiser conhecer o sociólogo citado, Zygmunt Bauman, pode ver o vídeo abaixo, da série "Fronteiras do Pensamento".




domingo, 21 de fevereiro de 2016

Como anda o seu tempo?


A Persistência da Memória, de Pablo Picasso

Nos vivemos no tempo - ele nos prende e nos molda -, mas eu nunca achei que entendia isso muito bem. E não me refiro a teorias de como ele se dobra e volta para trás, ou se pode existir em outro lugar em versões paralelas. Não, eu me refiro ao tempo comum, rotineiro, que os relógios nos mostram que passa regularmente: tique-taque, clique-claque. Existe algo mais plausível do que um segundo ponteiro? E, no entanto, basta o menos prazer ou dor para nos ensinar a maleabilidade do tempo. Algumas emoções o aceleram, outras o retardam; às vezes, ele parece desaparecer – até o ponto final em que ele realmente desaparece, para nunca mais voltar. 
(Julian Barnes, O SENTIDO DE UM FIM)


O que você fez no seu dia hoje? Já planejou o amanhã? Está, por acaso, preocupado com que o que pode vir? O tempo pode ser um senhor cruel em nossas vidas. E é impossível para um ser humano não viver controlado por relógios. Escola, faculdade, trabalho, encontro, nascimento e morte. Tudo moldado por minutos, horas, dias, meses, anos. Volta e meia alguém solta aquela máxima "o tempo está voando". Mas já bem sabemos que tudo não passa da nossa percepção e da forma como temos aproveitado cada dia de nossas vidas. E quanto mais compromissos, menos é o tempo do relaxamento e de "fazer nada".
Quando penso na minha vida dez anos atrás, adolescência e colégio, eu me lembro perfeitamente de como era tudo relativamente mais simples. Eram apenas cinco dias de obrigações (e apenas pela manhã). O resto podia ser aproveitado com descanso, lazer, cursos... Hoje, apesar de sobrar parte do meu dia, a vontade é de deixar esse tempo restante livre e preservado. Um tempo para tirar uma soneca, ler, escrever, ver filmes e fazer coisas que eu defino como prioritárias no atual momento da minha existência.
Se nosso tempo já vier definido para este mundo, o que faríamos com ele se, por exemplo, soubéssemos que morreríamos na semana que vem? Parar com tudo já que nada vale mais a pena ou tentar fazer o máximo de coisas nesse mínimo intervalo marcado? Questionamentos ainda mais delirantes poderiam ser feitos em relação a aspectos como realidade paralela (há outra acontecendo conosco neste momento?), viagens ao passado e futuro (está tudo lá ou não?) e tantas outras que nossa mente complexa permitir imaginar quando não encontramos coisas mais importantes a nos preocupar (ou seja, pensando no amanhã novamente...). 
Queremos que um dia chato acabe logo, enquanto aquela noite maravilhosa em boa companhia poderia ser eterna. É, nunca estamos satisfeitos mesmo. E eu termino por aqui, já que os textos neste blog costumam ser breves e terminam com um interessante vídeo relacionado ao tema no final (mais didático, impossível). Assim, você (se é que alguém lê isto aqui) pode fazer outra coisa ou procrastiná-la mais uma vez. O tempo é seu mesmo.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Charlotte, homem e cachorro





Pare de me seduzir, olhos verdes de Charlotte!
Pare de me hipnotizar, seus passos, homem estranho!
Pare de seguir meus passos, belo cachorro negro!
Vocês três já deviam saber como me encontro.


Antes dos trinta algo:
Águas turvas da noite
ou na manhã de neblina.
Acho que já sabem que é.


Como eu preciso de mistério,
Mas tamanha agonia sufoca
Não deixem o menino desamparado.
Voltem pra mim quando chamar.