Aqueles que vivem dos mortos

O contato com o 'outro mundo' é encarado diariamente por trabalhadores em Resende e proporciona histórias e declarações curiosas


Túmulos, lápides, enterros, mortos... Tem gente que não quer chegar nem perto, ainda mais à noite, quando tudo parece mais sombrio e assustador. Mas viver ‘perto’ dos mortos faz parte da realidade de muitos que precisam ir diariamente aos cemitérios para obter sua principal fonte de renda. Atender pessoas que acabaram de perder seus entes queridos, cuidar da condução dos enterros e fazer a manutenção dos túmulos e de toda a estrutura do cemitério.
Essas são as principais atribuições daquelas pessoas que têm sua vida em função dos mortos, conceito um tanto paradoxal se colocado tão próximo, mas que é parte da realidade de todos nós, simples mortais. Consideradas por muitos como aquelas profissões ‘invisíveis’, que parecem distantes da realidade, mas que só se tornam nítidas quando se recorre a elas. Afinal, por que se pensar no seu destino final quando se está vivo e cheio de saúde por aí? Você se preocupa com isso? Já pensou em ter um espaço reservado para onde seu corpo vai depois de sua morte?
Como será então para quem lida com essas questões diariamente? Tentando entender um pouco do trabalho e do que pensam essas pessoas, é que fomos acompanhá-las em mais um dia de sua rotina. Sejam bem-vindos. O local é o cemitério.


SERIA SECRETÁRIA...
São 9 horas da manhã de um sábado. Enquanto muita gente curte o descanso no último dia da semana, a maior parte dos trabalhadores do Cemitério Municipal Senhor dos Passos, em Resende, segue a toda ativa com suas atividades habituais.
Sentada em sua cadeira numa salinha atrás da capela mortuária está a coordenadora Maria Aparecida da Silva Benanse, mais conhecida entre os funcionários e frequentadores como Cida. Em 2012, ela completa 13 anos do trabalho que surgiu como uma proposta não muito clara do então diretor do Cemitério.
_ A oportunidade veio quando ele me disse que precisava de uma secretária. A princípio ele disse que precisava apenas de alguém para trabalhar. Só depois que eu fiquei sabendo que o trabalho era no cemitério – contou bem humorada a funcionária.
Cida havia perdido o marido há menos de um ano naquele período e confessa que ficou receosa por causa disso no começo.  “Eu achei estranho por ser o lugar onde ele estava sepultado. Para muitas pessoas, é um lugar muito mórbido. Eu demorei uns três meses para me acostumar. Fui me adaptando aos poucos”. Nessa época, ela teve uma de suas primeiras experiências inéditas em cemitério, que foi assistir a um ato de exumação, quando os restos mortais são desenterrados e retirados da sepultura.


Cida é coordenadora do Cemitério Municipal Senhor dos Passos há mais de dez anos.

Como o lugar já desperta curiosidade de muitos e certa rejeição de outros, não é de se estranhar as primeiras reações que o trabalho de Cida despertou em seus familiares e amigos. “Meus filhos pediram para eu não vir mais. Eles não aceitaram de cara. Falavam que era muito estranho por ter que ver gente morta”. Quando as pessoas perguntam qual é o seu trabalho, Cida muitas vezes prefere dizer que trabalha na prefeitura, porque tem gente que ainda considera essa área um tabu. “A não ser as pessoas que já me conhecem, aí eu não escondo. Consigo falar normalmente”.
Para quem chega pela primeira vez e acha que seu trabalho é simplesmente ficar ali sentada, atendendo o público e olhando papéis, está muito enganado. As funções vão além e ela conta que ali é como uma secretária (para o qual originalmente havia sido chamada), administradora e ‘office-girl’.
_ Aqui eu faço atendimento para marcação de sepultamento, abertura de processos, cuido das certidões e fico ciente de todos os problemas que surgirem – seu trabalho vai de segunda a segunda, sendo que precisa estar no local em finais de semana alternados.
E todo esse contato diário com as pessoas que perderam parentes ou entes queridos recentemente exige muito cuidado e uma prática já adquirida nesses mais de dez anos de exercício da profissão. Lidar com pessoas muitas fragilizadas e/ou chocadas pela morte não é tarefa das mais fáceis e precisa ser feita pela funcionária. “Quando eles perdem um familiar, a minha própria experiência de vida ajuda, já que eu perdi marido, avós e primos. Tem pessoas que chegam aqui mais fragilizadas, enquanto outros vêm revoltados. Eu preciso ter habilidade para lidar com isso e converso com eles para relaxarem. Praticamente todos que vêm aqui saem melhor”, relata Cida.

“Tem pessoas que chegam aqui mais fragilizadas, enquanto outros vêm revoltados. Eu preciso ter habilidade para lidar com isso e converso com eles para relaxarem. Praticamente todos que vêm aqui saem melhor”. Maria Aparecida da Silva Benanse, a ‘Cida’, coordenadora.

Nesse tempo todo em que já trabalha no local, Cida disse não se lembrar de ter vivido alguma situação bizarra, mas duas histórias referentes a túmulos lhe chamaram a atenção nesse período. Um deles é o de uma jovem que ficou conhecida na região como ‘Santa Eni’. A funcionária do cemitério contou que muita gente vem, principalmente no feriado de Finados, fazer pedidos em seu túmulo na esperança de obter um milagre. Já outra sepultura é a de um antigo fazendeiro, que, segundo contam, negava água aos seus empregados. Cida contou que já viu seu túmulo minando água várias vezes.
Será que trabalhar no cemitério altera a mente de qualquer um que fica ali? Para Cida, mudou muito, inclusive nas atitudes. Certos hábitos que tinha antigamente, como tirar as roupas e o calçado após chegar do cemitério para entrar em casa, hoje são coisa do passado. “Hoje eu encaro a morte com naturalidade. Infelizmente faz parte da vida. Tem momento que a gente fica deprimida, porque pessoas que a gente gosta vão embora. Mas hoje em dia eu tenho uma impressão muito diferente da morte”.

“Tem momento que a gente fica deprimida, porque pessoas que a gente gosta vão embora. Mas hoje em dia eu tenho uma impressão muito diferente da morte”. Cida.


ENTERRANDO
Se para Maria Aparecida, o começo foi um pouco estranho, para Amauri Ludaceni dos Santos as coisas foram mais tranquilas. Ele, que trabalha como coveiro no cemitério de Resende há sete anos, começou no local quando estava desempregado e aproveitou a oportunidade de um concurso.
“O cemitério sempre foi normal para mim. Desde o começo, eu vejo esse serviço como qualquer um que tem ser feito. Eu preciso ter muita responsabilidade assim como teria em outros trabalhos.” Mesmo com essa facilidade na adaptação e comprometimento com suas funções, Amaury contou que lidar com o público, que neste caso específico, são pessoas que acabaram de perder alguém próximo, exige muita precaução. “A gente precisa fazer um balanço. Tem gente que nos trata muito bem, mas há outros que nos tratam com grande indiferença.”
O coveiro tocou em um ponto que diz respeito ao preconceito existente nessa área que lida diretamente com a morte. “Antigamente o coveiro era sinal de analfabeto, ignorante, sujo, pinguço. Mas hoje todos que trabalham aqui têm uma formação. Mesmo assim ainda existem aqueles que acham que podem dar uma ‘caixinha’ na forma de cachaça”, contou o funcionário.

O trabalho de Amauri é feito de segunda a sexta-feira, de manhã e à tarde, sendo executado junto com outros três colegas. A média costuma de ser de no máximo dois sepultamentos ao dia. “É um trabalho que não tem rotina. Tem dia que não tem nada, enquanto em outros a emoção é forte.”

Cláudio Eli de Souza (esq.) e Fabrício Antônio de Jesus (dir.)
tiveram seu primeiro trabalho de coveiro no cemitério em Resende.

E ficar enterrando corpos quase todos os dias, geralmente diante de um bom número de pessoas reunidas, não poderia deixar de reunir histórias inusitadas. “Às vezes o cara tem três amantes e elas aparecem juntas aqui no mesmo dia. Nos enterros, as crianças choram muito. O único choro verdadeiro é o de criança. Os de adultos são todos falsos”.

“Nos enterros, as crianças choram muito. O único choro verdadeiro é o de criança. Os de adultos são todos falsos”. Amauri Ludaceni dos Santos, coveiro.

E o trabalho no cemitério seria, sem trocadilho, ‘eterno’ para quem tem uma ocupação como a de Amauri? Parece que não, ao menos para ele, que já tem outros planos sendo colocados em prática. “Isso aqui é temporário para mim, mas não é por causa do trabalho. Eu quero abrir meu próprio negócio. Estou montando um ‘pesque e pague’.” E para alguém que já achava a morte natural antes de trabalhar em um cemitério, manter essa visão continua fácil quando se lida com o assunto todos os dias.

 
HORA DA LIMPEZA
No Cemitério Municipal Senhor dos Passos, são ao todo noves pessoas contratadas pela administração pública. Todos os outros que se dedicam regularmente ao trabalho são autônomos, além dos funcionários de empresas terceirizadas que aparecem no caso de obras no local. 
Isabel de Souza é a trabalhadora mais antiga do local.
Uma dessas autônomas é Isabel de Souza Moraes (foto), uma senhora que há quase 30 anos vem trabalhando na limpeza de túmulos, além da confecção de placas para serem colocadas nos mesmos. Anteriormente com experiência em escritório e tendo um filho para sustentar, Isabel precisava de um trabalho que não lhe ocupasse o dia todo. A indicação veio de uma amiga e a chance foi logo aceita. “Eu sempre achei normal esse lugar, mas a minha irmã achava que ia pegar alguma doença”, contou enquanto realizava seu trabalho do dia.

“Eu sempre achei normal esse lugar, mas a minha irmã achava que ia pegar alguma doença”. Isabel de Souza Moraes, limpadora autônoma de túmulos.

Isabel costuma ir ao local uma vez por semana e no dia de aniversário dos falecidos, limpando uma média de 60 túmulos por mês, intervalo em que recebe o pagamento dos clientes. “Quando eles vêm aqui, eu procuro não fazer muitas perguntas. Respeito e deixo eles sentirem a dor”.


AQUELAS HISTÓRIAS
Animada ao som de um funk carioca no celular, outra figura encontrada no mesmo dia trabalhando no Senhor dos Passos foi a auxiliar de serviços gerais Vera Aparecida Almeida. Envolvida no serviço de limpeza pelos corredores do Cemitério há apenas dez dias, ela relatou que já havia tido a oportunidade de ouvir sons estranhos no cemitério.
Isso mesmo, se você achava que ninguém tinha uma boa história misteriosa do local para contar, Vera foi a primeira no dia a revelar. Mas não pense que isso a assusta. “Dia desses, eu ouvi gritos ali perto da capela. Ouvi gente gemendo. Só que não fico com medo. A gente tem que ter medo é dos vivos”.
E trabalhando junto a Vera, estava outra com mais histórias pra contar: Leonice Ribeiro, que há pouco mais de um mês trabalhava ali. Em seus quase 30 anos atuando em serviços variados, o cemitério não lhe pareceu em momento algum um local diferente. “Eu nunca tive medo ou preconceito. Aqui é uma casa como qualquer outra. Inclusive é melhor do que muitas”.

Sobre suas experiências sobrenaturais no trabalho, Leonice relata com muita naturalidade o que já pôde passar. “Eu já vi várias vezes os espíritos andando por aqui. Como eu já havia tido visões em outros lugares antes, isso soou normal pra mim”, contou com a franqueza de alguém que não tinha nada a temer.

Vera Aparecida (esq.) e Leonice Ribeiro (dir.) são duas que têm boas histórias de mistério para contar.

“Eu já vi várias vezes os espíritos andando por aqui. Como eu já havia tido visões em outros lugares antes, isso soou normal pra mim”. Leonice Ribeiro, auxiliar de serviços gerais.



(Trabalho acadêmico)

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