A delicadeza do envelhecimento



Os músculos do rosto da aniversariante não a interpretavam mais, de modo que ninguém podia saber se ela estava alegre. Estava era posta à cabeceira. Tratava-se de uma velha grande, magra, imponente e morena. Parecia oca. (...) Cada ano vencido pela aniversariante era uma vaga etapa da família toda. (conto "Feliz Aniversário", do livro "Laços de Família", de Clarice Lispector)



Dia desses, assisti a um filme chamado "As Baleias de Agosto" (1987), dirigido pelo britânico Lindsay Anderson e estrelado por duas lendárias atrizes: Lilian Gish (1893-1993) e Bette Davis (1908-1989). Além do clima poética que permeia a obra e seu fantástico elenco de veteranos, o que me levou a escrever este breve texto foi justamente o tema muitas vezes deixado de lado: lidar com o envelhecimento e a proximidade da morte.
Em uma sociedade onde o culto à beleza e o prolongamento da juventude parecem máximas, falar de velhice muitas vezes reduz-se ao universo médico e a pessoas ligadas à essa faixa etária. O valor da experiência, a força de pessoas que passaram por décadas, guerras mundiais, novas tecnologias... fica em segundo plano. Pessoas que resistiram a todo tipo de crise e dor, mas que, infelizmente acabam relegadas ao plano da fraqueza, o quarto escuro e fechado nos fundos, sem autonomia e poder de decisão.
Com meus 24 anos, tendo avós na faixa dos 80 e vendo constantemente matérias sobre o aumento da expectativa de vida, fico, é claro, fascinado pelo tema. Não à toa já escrevi uma porção de textos com personagens idosos (alguns neste blog). Às vezes, a identificação é tanta que acho que tenho alma de idoso. Mas aí já é outra história...
O fato é que todos dizem que preferem morrer a ficar um ser humano debilitado e dependente, mas, como bem sabemos, só não fica velho quem morre novo. E a não ser que você tenha os genes e o dinheiro de Jane Fonda, os anos vão passar sim e as rugas irão ficar notáveis no seu rosto. É a vida. E a morte.

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